Mulheres nos Hospícios, Agressores nos Palcos: Alexandre Frota e a banalização do estupro
- 2 de mar. de 2015
- 5 min de leitura
No fim de semana parei para ver o tal vídeo onde Alexandre Frota conta no programa do Rafinha Bastos, em TV aberta, sobre o dia que transou com uma “mãe de santo” que sequer lembrava o nome, sem ela ter aberto a boca pra consentir com isso e de um modo tão agressivo que terminou por deixar a moça desacordada. Mas mesmo assim não parou. Mesmo assim achou graça. Mesmo assim acharam graça com ele.
Tudo foi celebrado como mais um ato sexual normal, porém cômico. Ninguém ali parecia ver o elemento de violência sexual inerente ao caso e eu realmente acredito que nem o Frota, nem o Rafinha e nem a maioria do público presente considerou de fato toda história como estupro e ato violento. Acredito na “inocência de interpretação” dos envolvidos. E antes que alguém venha dizer que estou tentando defender qualquer um deles, vou explicar o porquê creio nisso com um exemplo muito doloroso pra mim, talvez o assunto mais tabu em toda minha vida, mas que se eu não tirasse de mim de uma vez por todas, talvez a ferida nunca fechasse de fato e eu não conseguisse mais sair do sofá/cama depois daquele vídeo:
Perdi a virgindade aos 15 anos com um rapaz alguns anos mais velho que eu, que havia conhecido na mesma noite e não voltei a ver (não tão cedo). Um ato frio, rápido e banal.
A idéia de amor romântico me foi negada desde cedo. Eu via que os dedos que apontavam pras garotas na escola e que juntos escreviam cartas de amor e convites para um passeio eram os mesmos dedos que apontavam pra me humilhar. Os mesmo rostos que escolhiam as meninas que mereciam afeto, eram os mesmos que me fizeram acreditar que eu, por ser gorda e feia, nunca ia mesmo receber aquilo. Então pra que me enganar esperando uma primeira vez dos sonhos se me fizeram crer que aquilo provavelmente seria o máximo de carinho que alguém como eu iria receber em toda vida?
Um ano depois eu reencontrei esse garoto em uma festa de rua em minha cidade. Eu com 16 e ele com seus 20. O nome era Diego e se lembrou que no dia em que nos conhecemos eu usava uma camiseta do Smashing Pumpkins. Disse que eu estava muito mais crescida, mais magra e bonita do que na primeira e última vez. Passou toda a festa conversando comigo e ouvindo o que eu dizia. Acreditem, parece banal mas foi o ápice a nível de interesse e aceitação que eu já havia recebido de uma pessoa, ainda mais em meio a uma festa, com garotas muito mais bonitas e chamativas do que eu.
Provavelmente percebeu como eu era inteligente, mente aberta, como eu gostava de Bukowski e de autores românticos do Mal-do-Século, como eu não me prendia a convenções sociais, como eu achava o Iggy Pop o máximo, já tinha visto um show do Sonic Youth, tinha várias frases do Hermes e Renato decoradas e sonhava em conhecer Glasgow. Tudo isso em poucas horas de reencontro, mas eu sabia que era verdade. Que finalmente viram meu potencial e não se prenderam apenas a minha aparência.
Semanas de conversa se seguiram até o dia que ele manifestou interesse em me ver e me convidou para uma festa na casa dele.
UAU! Nunca me convidaram pra uma festa! Ainda mais pra ser acompanhante de alguém! Maravilha! Coloquei minha camiseta do Pixies, meu jeans rasgado e até passei um batom, coisa que nunca fazia. O encontrei na frente do mercado do bairro, ele me levou pra casa, me ofereceu o sofá pra sentar, colocou um som pra tocar e virou um vinho em uma jarra de suco.
Estranhei a “festa” vazia, mas as pessoas chegariam depois, eu fui a primeira porque ele teve que me buscar, uma resposta que aceitei facilmente.Tomei um copo americano do vinho doce, desses baratos de nome comum que a gente bebe na praça ou na porta da escola querendo ser rebelde.
Acordei.Deitada na calçada horas depois.Em uma rua que nunca havia visto antes.Rasgada. Machucada. Ensanguentada.Sem ter idéia de como fui parar ali e nem do porquê.
Vieram os flashes de memória: eu nua tentando me esconder em baixo de uma beliche, encostada na parede chorando e tentando me livrar de mãos que não eram a do Diego, mas sim de alguém desconhecido que reclamava com risadas ao fundo pois “justo na vez dele a mina resolveu fazer cu doce”.
No hospital o corpo de delito. A confirmação do estupro. Os anti-retrovirais. Perguntas que eu não sabia responder. Humilhação.
Não sabia o que aconteceu, quantas pessoas haviam me estuprado e nem como, mas como eu fui andando até a casa do garoto, como até mesmo passei um batom porque de fato queria ficar com ele, não sabia até que ponto eu poderia ter consentido com isso e não me lembrado.
O ponto central de toda essa divagação é que na mesma semana do ocorrido o rapaz veio falar comigo no MSN.
Falou sobre como curtiu transar comigo. “Nós transamos?” - perguntei - "Eu não me lembro de nada".
“Sim, mas foi zoado porque você tava apagada, mas na próxima vai ser melhor.” E os convites se mantiveram por uns dias, até eu internalizar que, independente da culpa que injetaram em mim, foi sim estupro - estupro coletivo de vulnerável - e excluir o rapaz de todos os meios possíveis.
Uma naturalidade tamanha, um fluência e uma tranquilidade que me assombram até hoje e me fizeram sentir mal por pensar em denunciar porque, afinal, deve ter sido algo natural e eu devo ter errado em algo, talvez no julgamento, só pode ser. Eu devia estar provocante demais com uma camisa do Pixies GG, não é mesmo? Não posso contar isso a ninguém ou serei mais suja do que já achava que era.
A mesma naturalidade que cobria os olhos do Diego diante da violência e da dor que ele me causou, cobre os olhos do Alexandre Frota, Rafinha Bastos e todo seu público: sexo é sexo - estupro é o que acontece quando um desconhecido te pega no beco de madrugada, mas não isso. Estar desacordada é normal. Não lembrar do que fez faz parte. Brutalidade é fetiche.
A cultura do estupro, que muitos dizem ser exagero e delírio de "feminazi" faz com que as mães de santo do país continuem a ser animalizadas, usadas e largadas inconscientes sem jamais ter a chance de denunciar ou pedir justiça como eu mesma fui.
Talvez, Diego conte sobre esse dia para os amigos até hoje.Sobre a garota exótica de cabelo alisado colorido e fã de rock alternativo que ele e não sei quantos amigos levaram pra casa. De como foi engraçado ver ela tentar fugir meio dopada. De como bateram nela, talvez para conter os gritos ou mantê-la quieta. De como foi hilário ir deixá-la jogada em uma rua distante sem chamar atenção.Eu não duvidaria disso.E as pessoas vão rir e aplaudir em tom de deboche, rir daquela mulher sem rosto que foi violentada, desacreditada, apontada, humilhada e convencida por tantos anos de que foi a única culpada.
Não por acaso, esse foi o ano em que quase morri pela primeira vez em uma tentativa de suicídio que me colocou por dois meses em uma internação psiquiátrica. Mais uma vez a mulher é fragilizada, machucada, traumatizada, isolada da sociedade e fica sem forças para se manter vivendo enquanto a cultura que valoriza e cotidianiza a violência sexual permanece livre fazendo adeptos e vítimas.
Vítimas que derramam suas lágrimas ao ter que conviver com o som dos risos e a luz dos holofotes usados para dar voz e mérito a agressores, estupradores e homens que cegos pelo manto da naturalidade, da banalização da violência e da concepção de que o corpo da mulher é público, jamais entenderão a minha dor e a minha revolta diante de tal vídeo e diante da realidade social que é destinada a nós, mulheres.
Afinal, é tudo uma piada.




















Comentários